quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Festival de Mentiras que Assola o País

Colaboração do Rodrigo *.* (Geralmente as pessoas não gostam de ver o nome impresso por aí...)

O IBOPE
Stanislaw Ponte Preta

Nas poucas vezes em que circulei por salas de diretores, nas várias estações em que trabalhei, “atendendo a insistentes pedidos” — como dizem os locutores sempre que querem reapresentar uma cantora que ninguém pediu pra ouvir de novo — ouvi reclamações de anunciantes contra os programas sob seu patrocínio.

Até mesmo o contacto de Agência de Publicidade, que é conivente com o diretor comercial na quantidade de anúncios, já vi reclamando contra a má qualidade de programas que seu cliente patrocina, pagando um dinheirão. O que lá não tem muita importância porque, depois, ele despeja no imposto de renda e o resto que se dane. Mas é que que tem programa que sai tão ruim, que nem mesmo o mais cocoroca dos patrocinadores agüenta.

E é aí que entra o dragão. Isto é, o IBOPE, sigla de um negócio chamado Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas, que entrou para a televisão só para enganar anunciante e ajudar carreira de débil mental. O boboca que entrou com o dinheiro para um programa assim como — digamos — “Rainha por uma noite”, que passa para uma pessoa de idade mental beirando os dez anos, é um sacrifício assistir de graça, tem o direito de chiar.

E, às vezes, chia mesmo, porque eu vi vários na ante-sala do diretor comercial, aguardando a ocasião de ser atendido, para beber o sangue do desgraçado que o induziu a pagar aquela… aquela… enfim, deixa pra lá, porque querer definir um programa como “Rainha por uma noite” é mais difícil do que explicar a um sueco o que é um bumba-meu-boi.

(…) o otário que pagou para um programa dessa espécie ir ao ar, aparece na luxuosa sala do diretor comercial da TV querendo comer-lhe o fígado e pouco se importando se o diretor já teve hepatite ou não.

Mandam o otário entrar, oferecem aquele cafezinho regulamentar, e depois o diretor tira de uma gaveta o último boletim do IBOPE. Pronto… lá vai o trouxa ser embromado!

O diretor faz um sorriso de superioridade e parece que vai dizer: “O cavalheiro já experimentou o novo pó fixador de dentaduras que estamos fabricando?”. Mas, como ele não vive em filmes comerciais e sim de filmes comerciais, diz:
— O senhor já soube o índice de audiência que o seu programa alcançou na semana passada, segundo o IBOPE? Pois saiba que foi de 32%, meu amigo. Um índice excelente.

O trouxa, digo, o patrocinador faz um cálculo mental e não compreende. (…)

— Pois deu 32% — repete o diretor, com medo de que o trouxa reflita. — Em qualquer programa que dê este índice, centenas de patrocinadores querem colocar seus comerciais. E sabe por quê? Hein? Porque um programa com índice de audiência superior a 15% já aumenta as vendas de um produto, seja ele cebola ou desodorante, em 100%. (…) Foi por isso que o grande John Grunenberg, com toda a responsabilidade de seu gênio, disse que a televisão, para o bem da humanidade, foi o maior invento do século.

Está claro que o trouxa saiu do escritório convencido. (…)

Assim como eu disse aos distintos que me lêem que nunca vi o programa “Rainha por uma noite”, com a mesma sinceridade eu lhes garanto que ouvi um papo-furado parecidíssimo com este que acabo de lhes relatar. Lembro-me que, depois que o cara saiu do escritório, eu perguntei ao diretor comercial quem era o genial John Grunenberg e ele respondeu:
— Sei lá! Inventei o nome na hora, para convencer esse bestalhão. Você pensa que eu pago o IBOPE para quê?

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1 comentários:

Mack disse...

No livro Febeapá 3, e a Máquina de fazer doido, tem uns lances sobre tv que a gente percebe que ela já começou podre. Como dizia "Tia Zulmira o melhor da TV brasileira é o botão que desliga"
Eu tenho 52 anos e nunca fui entrevistado por pesquisadores, mas já vi muitos trabalhando no trem ou metro. Respondiam questionários no joelho.

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