terça-feira, 7 de setembro de 2010

Merval, o pregador iletrado

 O cartesianismo imbatível de Merval
 Luis Nassif
Merval não é repórter. Nos últimos anos abdicou de sua condição de jornalista para se candidatar a pregador político.

Tem o vezo de dividir o mundo entre analfabetos e a elite intelectual. Merval não é elite intelectual. Não é o analista capaz de identificar fatores-chave na política, analisar tendências, entender processos de mudanças sociais, econômicas e políticas. Ele é um pregador e, como tal, se sustenta em bordões simples, de fácil entendimento por leitores de baixa sofisticação intelectual.

Confira a lógica por trás de seu argumento - de que a imprensa desmontou a tese da participação do Aécio na montagem do livro se Amaury Jr, que está para ser lançado.

Como fazem os jornalistas que não brigam com fatos? Procuram o Amaury e perguntam sobre o livro. Ou podem falar com o Lanzetta - que, como assessor de comunicação, tem por ofício falar com jornalistas. Ou com jornalistas do próprio Estado de Minas. E eles dirão que o conteúdo do livro foi levantado por Amaury Jr contratado pelo Estado de Minas. Que o pessoal do Aécio ficou preocupado com as ameaças de armação por parte de Serra e encomendaram o dossiê preventivamente. Que depois firmou-se a paz e não quiseram usar o conteúdo. E, aí, Amaury decidiu levar a empreitada adiante para não perder "a melhor reportagem da minha vida".

Depois, basta conferir as datas em que Amaury viajou para esses locais e bater com seu contrato de trabalho com o jornal. Não é simples?

Para o jornalismo de Merval, não, porque esses fatos, não tendo saído na velha mídia, não aconteceram. Ele só consegue raciocinar com o material que sai publicado.

A velha mídia não falou do livro do Amaury Jr., logo não aconteceu. Não mencionou que ele teve como fontes de consulta a CPI do Banestado, os promotores que investigam a conta Beacon Hill, em Nova York, dados de paraísos fiscais. E, provavelmente, ajuda de procuradores brasilienses com bronca de Eduardo Jorge.

Os levantamentos até agora mostram que a privacidade dos dados da Receita é uma peneira, de tantos furos que têm. O relatório da PF identificou dois furos envolvendo EJ. Merval, o sujeito de racionalidade cartesiana, que jamais sai do aquário e considera que apenas o que sai na mídia acontece (e se não saiu não aconteceu), conclui de imediato: no mundo criado pela velha mídia só tem o o dossiê e os dois vazamentos; logo os dois vazamentos só podem ter ido para o dossiê.

Qual a evidência? Até agora, nenhuma. Mesmo porque o levantamento de Amaury - pelo que ele relata - se refere a episódios ocorridos na época da privatização.

E a velha mídia sai vitoriosa nesse extraordinário torneio de jornalismo sofisticado, moderno e racional. 

Durma-se com um Merval desses!

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