Por Mauro Santayana
É um engano identificar a batalha do Rio – e de outras grandes cidades – como mero confronto entre a polícia e delinquentes, traficantes, ou não. Embora a conclusão possa chocar os bons sentimentos burgueses, e excitar a ira conservadora, é melhor entender os arrastões, a queima de veículos, os ataques a tiros contra alvos policiais, como atos de insurreição social. Durante a rebelião de São Paulo, o governador em exercício, Cláudio Lembo, considerado um político conservador, mais do que tocar na ferida, cravou-lhe o dedo, ao recomendar à elite branca que abrisse a bolsa e se desfizesse dos anéis.
O Brasil é dos países mais desiguais do mundo. Estamos cansados do diagnóstico estatístico, das análises acadêmicas e dos discursos demagógicos. Grande parcela das camadas dirigentes da sociedade não parece interessada em resolver o problema, ou seja, em trocar o egoísmo e o preconceito contra os pobres, pela prosperidade nacional, pela paz, em casa e nas ruas. Não conseguimos, até hoje (embora, do ponto de vista da lei, tenhamos avançado um pouco, nos últimos decênios) reconhecer a dignidade de todos os brasileiros, e promover a integração social dos marginalizados.
Os atuais estudiosos da Escola de Frankfurt propõem outra motivação para a revolução: o reconhecimento social. Enfim, trata-se da aceitação do direito de todos participarem da sociedade econômica e cultural de nosso tempo. O livro de Axel Honneth, atual dirigente daquele grupo (A luta pelo reconhecimento. Para uma gramática moral do conflito social) tem o mérito de se concentrar sobre o maior problema ético da sociedade contemporânea, o do reconhecimento de qualquer ser humano como cidadão.
A tese não é nova, mas atualíssima. Santo Tomás de Aquino foi radical, ao afirmar que, sem o mínimo de bens materiais, os homens estão dispensados do exercício da virtude. Quem já passou fome sabe que o mais terrível dessa situação é o sentimento de raiva, de impotência, da indignidade de não conseguir prover com seus braços o alimento do próprio corpo. Quem não come, não faz parte da comunidade da vida. E ainda “há outras fomes, e outros alimentos”, como dizia Drummond.
É o que ocorre com grande parte da população brasileira, sobretudo no Rio, em São Paulo, no Recife, em Salvador – enfim em todas as grandes metrópoles. Mesmo que comam, não se sentem integrados na sociedade nacional, falta-lhes “outro alimento”. Os ricos e os integrantes da alta classe média, que os humilham, a bordo de seus automóveis e mansões, são vistos como estrangeiros, senhores de um território ocupado. Quando bandos cometem os crimes que conhecemos (e são realmente crimes contra todos), dizem com as labaredas que tremulam como flâmulas: “Ouçam e vejam, nós existimos”.
As autoridades policiais atuam como forças de repressão, e não sabem atuar de outra forma, apesar do emplastro das UPPs.
Na Europa, conforme os analistas, cresce a sensação de que quem controla o Estado e a sociedade não são os políticos nem os partidos, escolhidos pelo voto, mas, sim, o mercado. Em nosso tempo, quem diz “mercado”, diz bancos, diz banqueiros, que dominam tudo, das universidades à grande parte da mídia, das indústrias aos bailes funk. E quando fraudam seus balanços e “quebram”, o povo paga: na Irlanda, além das demissões em massa, haverá a redução de 10% nas pensões e no salário mínimo – entre outras medidas – para salvar o sistema.
A diferença entre o que ocorre no Rio e em Paris e Londres é que, lá, o comando das manifestações é compartido entre os trabalhadores e setores da classe média, bem informados e instruídos. Aqui, os incêndios de automóveis e os ataques à polícia são realizados pelos marginalizados de tudo, até mesmo do respeito à vida. À própria vida e à vida dos outros.

6 comentários:
Se toque sobre a europa para nao perpetuar o complexo de vira lata.
Independentemente de quem protesta na europa estao retirando de seus cidadaos direitos conqustados a decadas.
Como ja disse Lula: Uma democracia nao e so poder protestar que esta com fome, e poder comer.
tratem o Brasil com suas caracteristicas. Encontremos solucoes brasileiras para problemas brasileiros, pois muito do que se passa no Brasil hoje e o resultado de importacao de modelos impostos pelos europeus
"Mesmo que comam, não se sentem integrados na sociedade nacional, falta-lhes “outro alimento”. Os ricos e os integrantes da alta classe média, que os humilham, a bordo de seus automóveis e mansões, são vistos como estrangeiros, senhores de um território ocupado."
Discordo totalmente.
O crime, no Brasil, é resultado direto do tráfico de drogas.
Creio que a solução -- tal qual aconteceu nos EUA, na época da Lei Seca -- seja liberar as drogas leves; pois a proibição leva à organização do tráfico, e somente a legalização permite ao Estado algum grau de controle sobre as substâncias (agora) ilícitas.
Mas os responsáveis pelos ataques são criminosos, e como criminosos devem ser combatidos.
Caro Esquerdopata e amigos. Santayana tem toda razão, mas não posso deixar de acrescer: não seria bom nos perguntarmos; à quem interessa este solerte plano genocída mundial? A velhíssima belicosa nova ordem mundial escravagista com seus intocáveis banqueiros que administram a escassez controlada de tudo, principalmente de suas senzalas (genocídios de todos os matizes), é uma realidade cruel e indesejável de se admitir ou é melhor dizermos que é mais uma teoria conspiracionista? Ou a terrorista midiocracia que os acoberta é mais "palatável"?
Sinto muito, sou grato.
Análise do autor, como sempre, perfeita. Agora, enquanto nós, aqui no Brasil, ainda lidamos com o mesmo comportamento do Brasil-colônia, ou seja, individuos que rogam para si os privilégios, enquanto uma maioria vive à margem de tudo, comportando-se como na era das sesmarias, os europeus estão enfrentando do "deus" mercado. Se a pior forma de resolver um problema é fugir dele, os europeus e americanos terão de rever essa estrutura de mercado. Enquanto nós brasileiros ainda lutamos para romper com as perfeitas estruturas da colonização. No papel elas se foram; mas na cabeça e no comportamento da "elite" brasileira ainda é 1534.
Santayana sempre teve razão em suas análises, mas no caso do Rio acho que este discurso não é apropriado, lá é guerra de milícias urbanas disputando espaço pelo tráfico de drogas e outros poderes territoriais, nesse momento há, creio eu, uma empanzinação, que não permite a extenção desse discurso, e , muito menos, sua disgestão. Senhores, o que ocorre no Rio não é revolução, não é popular, é bandidagem e da grossa, liderada inclusive por políticos e empresários soterrados em seus aconchegantes subterrâneos.
Concordo plenamente com o Sr. João L. B. Penharvel. O que ocorre no Rio e (inclusive em São Paulo certamente) nada tem a ver com povo se rebelando, massa oprimida, etc. E o povo distinto e pobre, que habita naquelas áreas de favelas em nada apóia estas ações criminosas. São apenas os criminosos sendo sufocadas perdendo dinheiro e território. Já era hora mesmo.
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