As diferentes grafias ocidentais do nome do ditador líbio decorrem de diferentes sistemas de transliteração do alfabeto árabe. É o mesmo que ocorria quando o antigo líder chinês era referido como Mao Zedong (sistema de transliteração Pinyin) ou Mao Tsé-Tung (sistema Wade-Giles), ou mesmo Beijing (Pinyin) vs. Peking (Wade-Giles). Esse problema acontece sempre que se tenta tramnsliterar de um alfabeto para outro diferente. No caso do árabe, não existe um sistema universalmente aceito para transliterar para o alfabeto latino, daí a confusão. (Veja ainda Kruschev/Khruschev/Kruchev, para um exemplo do russo).
No mais, parabéns pelo blog, que acompanho todos os dias.
O mais correto seria o Q, utilizado pelo NY Times. Em árabe, o nome do ditador da Líbia começa com a letra Qaf, uma espécie de C gutural, pronunciado utilizando a base da língua e a entrada da garganta.
Nossa imprensa mais uma vez mostra-se incapacitada de competir em qualidade com a já muito ruim imprensa dos EUA.
Não existe "mais correto" quando se trata de transliteração. É apenas uma convenção, pois é impossível reproduzir-se exatamente o som original do árabe, por exemplo, utilizando-se caracteres do alfabeto latino, mesmo com toda a gama de sinais diacríticos (acentos, etc.). Além do mais, o problema não está só no som do "qaf". O nome do ditador líbio se escreve com as letras qaf-dhal-alif-fa-ya. O "dhal" é um "d" mais sonoro (algo como o "th" em inglês na palavra "that", um pouco mais duro) e é por isso que alguns escrevem "d", outros "dd" ou "dh". Repito, não há forma "mais correta", e aquela adotada pelo NY Times é apenas uma entre várias. Os jornais franceses, por exemplo, escrevem "Kadhafi" e nem por isso são inferiores aos americanos.(Eu, pessoalmente, prefiro "Qadhafi", mas meu sistema não é melhor do que qualquer outro.)
Ou se pode recorrer ao aportuguesamento. O nome do país cuja capital é Doha é escrito qaf-tta-alif-ra: os anglo-saxônicos escrevem Qatar, os franceses Katar, em português é Catar. O importante é que, uma vez adotada uma determinada convenção, a publicação seja coerente e a utilize sempre. Se um jornal adota "dd" para o "dhal", por exemplo, então que use "dd" sempre que for transliterar essa letra em qualquer nome árabe em que ela apareça.
Agora, é muito pouco provável que nossos jornais prestem qualquer atenção a essas minúcias. Coerência nunca foi prioridade em nossas redações.
3 comentários:
Caro Esquerdopata:
As diferentes grafias ocidentais do nome do ditador líbio decorrem de diferentes sistemas de transliteração do alfabeto árabe. É o mesmo que ocorria quando o antigo líder chinês era referido como Mao Zedong (sistema de transliteração Pinyin) ou Mao Tsé-Tung (sistema Wade-Giles), ou mesmo Beijing (Pinyin) vs. Peking (Wade-Giles). Esse problema acontece sempre que se tenta tramnsliterar de um alfabeto para outro diferente. No caso do árabe, não existe um sistema universalmente aceito para transliterar para o alfabeto latino, daí a confusão. (Veja ainda Kruschev/Khruschev/Kruchev, para um exemplo do russo).
No mais, parabéns pelo blog, que acompanho todos os dias.
O mais correto seria o Q, utilizado pelo NY Times. Em árabe, o nome do ditador da Líbia começa com a letra Qaf, uma espécie de C gutural, pronunciado utilizando a base da língua e a entrada da garganta.
Nossa imprensa mais uma vez mostra-se incapacitada de competir em qualidade com a já muito ruim imprensa dos EUA.
Prezado Cristiano:
Não existe "mais correto" quando se trata de transliteração. É apenas uma convenção, pois é impossível reproduzir-se exatamente o som original do árabe, por exemplo, utilizando-se caracteres do alfabeto latino, mesmo com toda a gama de sinais diacríticos (acentos, etc.). Além do mais, o problema não está só no som do "qaf". O nome do ditador líbio se escreve com as letras qaf-dhal-alif-fa-ya. O "dhal" é um "d" mais sonoro (algo como o "th" em inglês na palavra "that", um pouco mais duro) e é por isso que alguns escrevem "d", outros "dd" ou "dh". Repito, não há forma "mais correta", e aquela adotada pelo NY Times é apenas uma entre várias. Os jornais franceses, por exemplo, escrevem "Kadhafi" e nem por isso são inferiores aos americanos.(Eu, pessoalmente, prefiro "Qadhafi", mas meu sistema não é melhor do que qualquer outro.)
Ou se pode recorrer ao aportuguesamento. O nome do país cuja capital é Doha é escrito qaf-tta-alif-ra: os anglo-saxônicos escrevem Qatar, os franceses Katar, em português é Catar. O importante é que, uma vez adotada uma determinada convenção, a publicação seja coerente e a utilize sempre. Se um jornal adota "dd" para o "dhal", por exemplo, então que use "dd" sempre que for transliterar essa letra em qualquer nome árabe em que ela apareça.
Agora, é muito pouco provável que nossos jornais prestem qualquer atenção a essas minúcias. Coerência nunca foi prioridade em nossas redações.
Postar um comentário