sexta-feira, 22 de abril de 2011

Pelo fim da Páscoa

Chega de Páscoa Sofrida
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Escritor propõe o Feriado do Coelhinho em substituição
à Semana Santa
Estimados leitores, essa coluna inicia aqui o movimento internacional e global pelo fim da Páscoa. O que não significa o final do feriado, de maneira alguma. Todo mundo vai poder continuar ficando preso em engarrafamento livremente, não se preocupem.

Mas, o que eu acho que seria uma excelente ideia é apenas remover do nosso calendário emocional uma data baseada no pior do catolicismo: a ideia de compartilhar do sofrimento de algo ou alguém que estava lá de propósito e para isso mesmo.

Páscoa, estimados leitores, está centrada na tal paixão de Cristo. Mas paixão aqui no sentido latino, de passio, ou sofrimento. Na paixão de Cristo, o coitado é sovado sem dó por romanos e por quem mais estiver assistindo, e a gente é convidado a compartilhar da pancadaria na condição de quem a sofre. No grande final, o sujeito que veio até aqui para salvar todo mundo dos seus pecados é solenemente crucificado. Essa não é a minha ideia de divertimento, estimados leitores.

Apenas como comparação linguística, compaixão é compartilhar do sofrimento do outro. Na forma germânica, compaixão é Mitgefühl, ou algo assim, significando co-sentir, ou compartilhar dos sentimentos do outro. Eu gostaria muito, muito mais se a gente passasse a comemorar um feriado onde se praticasse o Mitgefühl, e a gente se dedicasse a sentir o outro, e, eventualmente, compreendê-lo, do que passar dias pensando no coitadinho do outro e o quanto ele se sacrificou por nós, sem que a gente pedisse.

Culpa, dor, sofrimento. Essa é a parte do catolicismo que mais me incomoda, o culto ao que existe de pior na vida, a celebração da morte, o que invariavelmente leva a sentimentos de vingança. Meu pobre pai sofre até hoje pelo que ele e os meninos da sua vizinhança faziam no sábado de malhar Judas, instigados pelo padre, quem mais.

Saibam que os romanos crucificavam todo mundo e por qualquer motivo. O cara espirrou torto, pimba, crucifiquem. Madeira e mão de obra custavam pouco, a civilização romana, com toda sua sofisticação, era muito cruel na essência. Não havia nada de especial em crucificar alguém, apenas o horror da coisa, que os contemporâneos viam e temiam. A cruz somente foi adotada pelo cristianismo uns quatro séculos depois de pararem com a prática da crucificação, quando a memória do seu horror já estava distante o suficiente para a cruz poder ser tratada como símbolo, um símbolo muito, muito eficaz. Para que celebrarmos hoje em dia o que existe de pior em uma religião tão preocupada com o sofrimento nesse mundo? Vamos para o outro lado, vamos curtir o feriado imersos em pensamentos mais felizes.

O coelhinho da Páscoa é o meu candidato a se tornar o símbolo da Nova Páscoa. Chocolate é muito melhor enquanto proposta de vida. Estimulante, prazeroso pra caramba, mais saudável do que dizem. E o coelhinho, por diversos motivos, é símbolo do que existe de divertido na vida, não é?

Não que coelhos ovíparos sejam exatamente algo muito racional. Mas, se pensarmos em crenças esquisitas, o mito cristão é tão esquisito quanto, e muito menos feliz. Feriado do Coelhinho, já. Começou a campanha e unam-se a ela, caros leitores.

O mundo era o que era, e é certo lembrar dele como foi, para compreendermos melhor o que nos tornamos. Mas celebrar os seus piores aspectos, eternizando-os em nossa mente coletiva não me parece uma boa maneira de caminhar pela vida, como sociedade.

Guerras, lutas, morte, dureza, fome, constituíram a experiência central da humanidade por milênios, mas lutamos muito e superamos parte desse karma. Existem guerras, existe infelizmente ainda a fome. Mas a maioria dos humanos não está experimentando nada disso e provavelmente nunca irá ter a tristeza de passar por tanta desgraça. Temos vacinas, produzimos comida, criamos sistemas de governo centrados na ideia de que o bem comum deve ser buscado por todos e para todos. Queremos aprender a parar de aquecer o planeta, devastar sua natureza e eliminar a pobreza mais dura. Assim que conseguirmos isso e ainda por cima fizermos desaparecer o axé, estaremos bem. Isso, sim, merece ser celebrado, e creio que o Coelhinho, com sua mensagem de fertilidade e alegria será um ótimo representante do novo feriado.

Enquanto vocês pensam no assunto, vou aqui praticar a felicidade fazendo o meu inigualável chocolate quente, receita do Café Hermés, de Paris, com o maravilhoso chocolate Rey, em pó e em barra, vindo da Venezuela especialmente para essa ocasião.

Quem quiser se juntar a mim nos festejos da Nova Páscoa, é só pedir e eu mando a receita do chocolate quente perfeito. Uma feliz Nova Páscoa a todos, é o que lhes deseja esse seu servo, eu.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

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6 comentários:

Geopolêmica disse...

Este artigo também foi publicado no TERRA e lá os comentaristas, em sua maioria "cristãos" desceram o cacete no autor.......Os fanáticos religiosos e suas viseiras!

Rodrigo disse...

alô. excelente post. nunca comentei no blog, mas aproveito para falar de um livro muito bom que também bate nessa tecla: a última semana, de john dominic crossan. ele faz a distinção entre os dois sentidos de paixão de cristo e critica a supervalorização do espetáculo deplorável da mortificação como exemplo de prática cristã

Jonas de Carvalho disse...

Certo. Vai daí que passaremos a adorar os coelhinhos.

Grandes abraços

Nélio Schneider - Porto Alegre disse...

Sou cristão, mas não vou descer o cacete no autor. Na essência, o autor tem razão quando diz que o cristianismo, em grande parte, conseguiu transformar o sofrimento de Cristo em algo que tem sentido em si. Para os primeiros cristãos, no entanto, esse sofrimento só ganhou sentido à luz da fé na ressurreição, ou seja, como sofrimento superado, vencido, derrotado. E é assim que deve ser. O único sofrimento bom é o sofrimento morto. O primeiro símbolo cristão não foi a cruz, mas o peixe, ichtys, que comporta as iniciais em grego de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. E a salvação efetivada por Jesus Cristo é um oferecimento para quem quiser. Não é uma imposição. É graça de Deus, assim como é a vida de cada pessoa, animal ou planta na Terra. Assim como na política, também na religião é preciso aderir às tradições libertadoras, fomentadoras da vida, e rechaçar as posturas centradas no sofrimento e na morte. Mas convenhamos que a vida não é só diversão e prazer, como quer o autor. A dor e o sofrimento fazem parte, são reais e precisamos aprender a lidar com eles. Então deve haver um tempo para refletir sobre eles, para ter Mitleid(en), capacidade de solidarizar-se ativamente com quem de fato está sofrendo (cujo primeiro passo é o Mitgefühl, a capacidade de sentir junto com a outra pessoa). E essa compaixão pode, por que não, ser demonstrada com um belo coelhinho de chocolate (embora me pareça um tanto simplório apelar para coelhinhos e papai noel, que tampouco representam tradições libertárias).

Anônimo disse...

Concordo com o Schneider.
Sou cristã-evangélica, não sou fundamentalista e sou socialista.
Respeito todas as religiões e no máximo posso debater algum ponto de vista, mas nunca condenar.
As pessoas que têm uma visão tão particular sobre algo que não entenderam, por distorção de falas e comportamentos de quem não esclareceu e ainda confundiu (sejam sacerdotes, familiares ou personagens de notícias), antes de manifestarem sua opinião, deveriam obter mais informações, para não cairem numa fala preconceituosa e ofensiva. Temos visto muitos casos de pessoas pregando o fim das religiões e desrespeitando os que as seguem.
Quanto à Páscoa, há que se enfatizar seu sentido de renovação, recomeço ou aperfeiçoamento de vida, mais forte e mais produtiva e feliz.

Anônimo disse...

Phalus Pegasus! Fazer desaparecer o axé music. Marcelo Cunha pra presidente do mundo!

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