O governo decidiu suspender todas as produções que estavam sendo editadas pelos ministérios da Saúde e da Educação sobre a questão da homofobia. De acordo com o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, a presidenta Dilma Rousseff assistiu vídeos do chamado "kit homofobia" e não gostou do tom das produções.
"A presidenta decidiu suspender esse material e suspender também a distribuição", disse o ministro. De acordo com Gilberto Carvalho, todo material sobre "costumes" será produzido após consulta a setores da sociedade interessados, inclusive a bancada religiosa.
"A presidenta se comprometeu, daqui para a frente, que todo material sobre costumes será feito a partir de consultas mais amplas à sociedade, inclusive às bancadas que têm interesse nessa situação. Nós entendemos que é importante que, para ser produtivo e atingir seu objetivo, esse material seja fruto de uma ampla consulta à sociedade, para não gerar esse tipo de polêmica que, ao fim, acaba prejudicando a causa para a qual ele é destinado", disse Carvalho.
"A posição do governo é clara. Estão suspensas a edição e a distribuição desse material. E qualquer material daqui para frente passará por um crivo de um debate mais amplo da sociedade", enfatizou Gilberto Carvalho.
O kit de combate à homofobia foi elaborado por entidades de defesa dos direitos humanos e da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis) a partir do diagnóstico de que falta material adequado e preparo dos professores para tratar do tema. O preconceito contra alunos homossexuais tem afastado esse público da escola, apontam as entidades.
Na semana passada, o ministro da Educação, Fernando Haddad, em entrevista ao programa de rádio Bom Dia, Ministro, negou que o ministério tivesse decidido pela alteração do conteúdo do kit de combate à homofobia. “O material encomendado pelo MEC visa a combater a violência contra homossexuais nas escolas públicas do país. A violência contra esse público é muito grande e a educação é um direito de todos os brasileiros, independentemente de cor, crença religiosa ou orientação sexual. Os estabelecimentos públicos têm que estar preparados para receber essas pessoas e apoiá-las no seu desenvolvimento”, defendeu Haddad à época.
O material do kit ainda não havia sido finalizado pelo governo. Entretanto, três vídeos que vazaram pela internet provocaram polêmica há duas semanas. Apesar das críticas, o kits ganharam apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco) que lançou seu parecer favorável ao material. Na avaliação da Unesco, o material iria contribuir para a redução do estigma e da discriminação. O material deveria ser distribuído a 6 mil escolas de ensino médio.
3 comentários:
Urge a necessidade cada vez maior de mentes pensantes nesse país. Há algumas semanas atrás, os ministros do STF nos deram uma aula de respeito e cidadania ao apontarem para a lacuna que há no nosso regime democrático ao não se garantir direitos legítimos a uma parcela da população que, até o presente momento, sofre discriminação, preconceito e, mesmo, violência, sem poderem expressar aberta e livremente sua orientação sexual. É um completo retrocesso esse veto da presidente Dilma ao kit a ser distribuído nas escolas de nosso país, o qual poderia ser um primeiro passo na mudança da mentalidade de nosso sociedade intolerante e preconceituosa que, para sedimentarem suas ideologias, valem-se diabolicamente do nome de Deus! É de espantar que, após os brilhantes, esclarecedores e fundamentados discursos dos ministros do STF, alguém, com o mínimo de instrução, possa se curvar perante o peso de grupos fundamentalistas. Ou será que nem todos entenderam o que eles discursaram, presidente Dilma? A volta à Universidade faz muito bem...
Pela primeira vez a presidenta Dilma me entristece. Não me importam as chantagens políticas da oposição, quando o principal é a luta pela conquista plena da dignidade humana. Meço a gravidade da situação pelo contentamento dos brucutus fascistas e dos fundamentalistas religiosos intolerantes diante dessa decisão. Decisão a qual a Dilma precisa reverter.
FALSO HUMOR
ZUENIR VENTURA
Riso e preconceito
Pelo menos dois colunistas chamaram a atenção para o fato. "Já virou moda", escreveu André Barcinski, "o artista ou celebridade falar uma besteira em entrevistas, no Twitter ou no Facebook, e depois voltar para se desculpar". O seu colega da "Folha de S.Paulo" Marcelo Coelho explica: "Ser politicamente incorreto, no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer 'incorreto' — e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir."
Isso veio a propósito das declarações do diretor Lars Von Trier, que em Cannes se confessou simpatizante de Hitler e admitiu ser nazista. Diante dos protestos, correu para se justificar. "Me arrependo. Foi uma brincadeira estúpida."
Aqui houve casos semelhantes. O cantor Ed Motta exaltou no seu perfil do Facebook o Sul do Brasil: "Como é bom, tem dignidade isso aqui. Frutas vermelhas, clima frio, gente bonita. Sim, porque ôôô povo feio o brasileiro", exclamou, talvez se olhando no espelho. Depois, apressou-se em dizer que fora mal compreendido. Mais grave foi o que se fez em nome do humor. O comediante Rafinha Bastos declarou em um show que toda mulher que reclama de estupro é feia: "Deveria dar graças a Deus (...). Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço."
Outro artista do programa "CQC", Danilo Gentili, preferiu apontar para as vítimas do Holocausto. Comentando o abaixo-assinado contra uma estação de metrô, tuitou: "Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz" (no bairro moram muitos judeus). A exemplo de Rafinha, Gentili arrependeu-se e foi à Confederação Israelita se desculpar.
Será que não se pode fazer piada com temas polêmicos? Claro que sim. Barcinski cita vários exemplos, entre os quais um texto clássico do comediante Redd Foxx sobre anões, sem falar em Woody Allen com seu olhar crítico sobre judeus.
No Brasil, um dos livros mais engraçados no gênero é "As melhores piadas do humor judaico", de Abram Zylbersztajn. Algumas são atrevidas, nenhuma preconceituosa e todas hilárias.
O problema é que quando ofende, em vez de fazer rir, o politicamente incorreto é tão sem graça quanto o seu contrário.
As desculpas atenuam a agressão, mas não escondem a discriminação que se disfarça atrás do falso humor. Nesses atos falhos, o autor deixa escapar inconscientemente a manifestação do que está reprimido: o preconceito.
Passei o sábado tentando explicar sem sucesso como confundi dois pares de fartos seios parecidos, mas separados no tempo. Em outras palavras: a mãe de Mariska, a Olivia de "Law & Order", é Jayne Mansfield e não Mae West, como publiquei.
Publicado no Globo de hoje
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