domingo, 12 de junho de 2011

Sai o Consenso de Washington e entra o Consenso de Brasília

Recente eleição de Humala no Peru consolida avanço de líderes esquerdistas moderados na América Latina em detrimento do modelo impulsionado pelo venezuelano Hugo Chávez 


Falha de S. Paulo


Com a vitória de Ollanta Humala na eleição presidencial do Peru, avança na América Latina o que já vem sendo chamado de "consenso de Brasília".

Regimes de esquerda moderada, que combinam inclusão social com nacionalismo na exploração de recursos naturais e estabilidade macroeconômica, estão se consolidando na região.

Os maiores símbolos desse novo consenso são Brasil, Uruguai e El Salvador.

O reaça Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, conhecido defensor do livre mercado, apoiou Humala na eleição e falou do novo consenso em coluna no jornal espanhol "El País".

"Para que aqueles programas [sociais] sejam bem-sucedidos, é indispensável que o Peru continue crescendo, senão não há riqueza para distribuir. Os socialistas chilenos, brasileiros, uruguaios e salvadorenhos entenderam isso e, apesar de continuarem se chamando de socialistas, têm feito um governo social-democrata (não digo liberal para não assustar, mas não seria mentira)."

Na América do Sul, só restaram dois países grandes com governo de centro-direita -Chile e Colômbia. E mesmo esses estão se movendo para a centro-esquerda.

O governo de Sebastián Piñera no Chile é considerado uma continuação do Concertación (coalizão de partidos de centro-esquerda).

Piñera adotou medidas mais identificadas com a esquerda do que com a direita -renegociou os impostos da mineração e quer aprovar licença-maternidade de seis meses.

Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos tem sido criticado por seu antecessor Alvaro Uribe por medidas de indenização de vítimas do conflito armado e um plano de devolução das terras de camponeses expropriadas por paramilitares de direita.

O Peru, que durante o governo Alan García seguiu à risca os preceitos do consenso de Washington de atração de investimentos e abertura comercial, não enfatizou os programas sociais, e esse foi um fator determinante para a eleição de Humala.

"O Peru foi um golpe contra a direita, que acreditava que bastava ter boas políticas e crescimento econômico para resolver a pobreza", diz Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue.

"Essa eleição aponta para a consolidação de um esquerdismo moderado na região. Podemos falar no avanço de um "consenso de Brasília", baseado em agenda social e política macroeconômica responsável dentro de um arcabouço democrático."

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1 comentários:

Anselmo disse...

interessante o recorte, mas chamar de "consenso de brasília" tem mais cara de frase de efeito do que aspectos práticos.

eu palpitaria q a região vive mais um período pós-consenso de washington, ainda sem nova hegemonia cristalizada. é bem verdade que tanto a alternativa da Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, como a minha (elaborada em estado de pré-boteco, já que ainda não cheguei à almejada mesa de bar neste domingo) querem dizer mto pouco.

Chávez é mto diferente de Lula/Dilma até nas políticas. Estatização passou longe do governo petista -- apesar do fortalecimento do Estado com concursos públicos e criação de novas estatais e política contracíclica nos momentos de crise/recessão e de crescimento, as agências reguladoras seguem fracas e a Telebras já foi esvaziada em sua pretensão inicial de ser motriz do PNBL puxado pelo setor público. Isso sem falar em concessões de rodovias federais e de aeroportos.

Note-se bem: ao apontar esse aspecto do governo de Lula e do governo de Dilma, eu nem tô entrando no mérito da questão das privatizações. Só tô frisando que é mto diferente de promover estatizações.

Basta ver que Humalla passou a campanha toda dizendo que não era Chávez, mas queria mesmo ser Lula.

O mesmo vale pro governo dos Kirchner e mais ainda para Evo Morales. O processo boliviano, então, é mto peculiar e costuma ser (mal) definido como um modelo que ruma a reboque do chavismo, da revolução bolivariana e coisa e tal.

Alguém pode argumentar que, privatizações à parte, o modelo neoliberal aplicado em cada país também teve suas particuladades. Mas houve uma formulação teórica que elaborou, pautou organismos multilaterais e registrou nos anais da história uma série de medidas sob o título de "consenso".

Em Brasília, ninguém se pôs a dizer o que deveria ser feito por aí. Houve encontros em Porto Alegre com essa pretensão, mas que evoluiu para ser plataforma para todas as outras coisas que não sejam um único consenso.

Por isso a ponderação. Cada país tem sua cartilha, embora valores como soberania, desenvolvimento econômico, inclusão social e combate à pobreza sejam vitais no discurso de todos e de cada um dos presidentes "alinhados" da região.

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