Marcelo Semer
Terra Magazine
Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se.
O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.
Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?
Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.
O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.
Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.
De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.
Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.
No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.
É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.
O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.
Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.
E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.
Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.
Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.
Nós já sabemos onde isto vai dar.
O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.
O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras).

4 comentários:
Discordo apenas da última frase do texto. Infelizmente, o comportamento fascista não está ultrapassado, muito pelo contrário. É assustador o nível de reacionarismo, revanchismo, intolerância e de ódio mesmo que a grande maioria de nossa classe média destila. Não suportam o fato de que os pobres e miseráveis estão deixando de sê-lo.
E isso aqui no Brasil. Lá no "primeiro mundo" a coisa está muito pior. A esquerda sumiu do mapa. A única coisa que pode trazer algum contraponto ao avanço do fascismo é o engajamento da juventude na luta política. Na Espanha, na Grécia e nos países árabes parece que isso está acontecendo.
Como já se disse pouco tempo atrás: "É chique ser reaça", falar mal do sistema de cotas, criticar os projetos de inclusão social, ser racista mas dizer que não o é, dizer que nordestinos são isso ou aquilo, que a cultura popular "dá nojo".....etc, etc......esses articulistas fascistas parecem estar sempre conversando na sauna de clubes de ricos ou chás de senhoras do "high society".....
Em relação ao desrespeito à mulher, especificamente, questiono-me até que ponto nossa sociedade avançou verdadeiramente. No Irã, país que figura na imprensa entre aqueles que mais desrespeitam o direito das mulheres, as moças não podem andar descobertas - embora muitas o façam de bom grado devido às suas crenças religiosas; mulheres não podem cantar ou dançar publicamente; e participam, entretanto, do mercado de trabalho e estão amplamente inseridas nas escolas e Universidades. No Brasil, a mulher tem toda a liberdade desde que aceite equiparar-se a um mero objeto sexual: mutilar-se para estar mais ao gosto da freguesia, vestir-se para expor-se mais aos olhos gulosos dos homens, e dançar e cantar para fechar essa boa ‘peça de marketing’ que promove, mundo a fora, a imagem da brasileira hot girl. Por outro lado, se essa mulher tem opiniões, estuda, argumenta, e PENSA, ela é rapidamente chamada de ‘mal-amada’, chata, histérica. Cansei-me de ouvir na política, os adversários políticos das candidatas chamando-as de “Dona fulana de tal”, no lugar de Sra. Fulana de tal. Cansei-me de ver o riso das pessoas que, ao assistirem uma mulher defendendo suas posições veementemente, dizem maliciosamente “Não tomou o remédio hoje”, “Está de chico”.
Tendo a pensar que o desrespeito entre as mulheres brasileiras está no mesmo patamar do desrespeito praticado nos mais criticados países do Oriente Médio e digo isso porque aqui e lá a mulher deve resignar-se a cumprir o papel que a sociedade patriarcal lhe atribui sem questionar, e sempre que ela se levanta contra essa ideia, é rotulada e excluída de seu meio social.
Fica a pergunta: as mulheres estão mais próximas de conquistarem o papel que merecem em sociedades onde elas têm clareza a respeito da discriminação que sofrem ou em sociedades onde elas pensam, erroneamente, que são livres?
Antes de comentar esse fato lamentável; quero reiterar a minha ciência da importância e gravidade do assunto homossexualidade, que é coisa de prática exclusiva de adultos; demandando uma discussão séria, tranqüila e respeitosa entre todos os envolvidos que impeça a pretendida ditadura de algo que vai além dos reais direitos dos que vivem a homossexualidade, os quais, respeito e defendo (somente esses reais direitos), conforme três Blogs meus postados na Rede sobre o assunto ─
O QUE É O PLANO NACIONAL LGBT? Endereço ─ www.direitoshumanosrespeitoejustica.blogspot.com ,
O QUE É O PLC 122 OU A DITA LEI HOMOFÓBICA? Endereço www.verdaderespeitoejustica.blogspot.com ,
O QUE É O PLC 122 OU A DITA LEI HOMOFÓBICA? (sinopse do anterior) Endereço www.sinteserespeitoejustica.blogspot.com
É sério este fato lamentável: o homem Laerte Coutinho vestido de mulher (ainda que se entenda como bissexual) achar que tem o legítimo direito de usar o banheiro feminino (das mulheres)... Quando digo sério é pelo fato de existir como que uma conspiração contra a família brasileira, no tentar fazer de todos nós andróginos. Senão avaliem o que aconteceu com essa menina de 10 anos e demais mulheres que lá estavam, na ação de atentado ao pudor por parte de um homem; que também é pai e com ótima formação acadêmica, que lhe dá toda capacidade cognitiva para entender a insanidade do seu ato. Coisa essa feita a pretexto do direito de um homem vestido de mulher (no caso aqui o Laerte) entrar em banheiro feminino... Estejamos atentos ao que se pretende contra a família e Princípios éticos e morais.
Atenciosamente JORGE VIDAL
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