quinta-feira, 21 de julho de 2011

O reacionário moderno e o velho fascismo

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo 
Marcelo Semer
Terra Magazine

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se.

O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.

De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.

É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.

Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.

Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.

Nós já sabemos onde isto vai dar.

O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.

O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.

Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras).

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4 comentários:

ruy garcia disse...

Discordo apenas da última frase do texto. Infelizmente, o comportamento fascista não está ultrapassado, muito pelo contrário. É assustador o nível de reacionarismo, revanchismo, intolerância e de ódio mesmo que a grande maioria de nossa classe média destila. Não suportam o fato de que os pobres e miseráveis estão deixando de sê-lo.
E isso aqui no Brasil. Lá no "primeiro mundo" a coisa está muito pior. A esquerda sumiu do mapa. A única coisa que pode trazer algum contraponto ao avanço do fascismo é o engajamento da juventude na luta política. Na Espanha, na Grécia e nos países árabes parece que isso está acontecendo.

Geopolêmica disse...

Como já se disse pouco tempo atrás: "É chique ser reaça", falar mal do sistema de cotas, criticar os projetos de inclusão social, ser racista mas dizer que não o é, dizer que nordestinos são isso ou aquilo, que a cultura popular "dá nojo".....etc, etc......esses articulistas fascistas parecem estar sempre conversando na sauna de clubes de ricos ou chás de senhoras do "high society".....

Helena Morita disse...

Em relação ao desrespeito à mulher, especificamente, questiono-me até que ponto nossa sociedade avançou verdadeiramente. No Irã, país que figura na imprensa entre aqueles que mais desrespeitam o direito das mulheres, as moças não podem andar descobertas - embora muitas o façam de bom grado devido às suas crenças religiosas; mulheres não podem cantar ou dançar publicamente; e participam, entretanto, do mercado de trabalho e estão amplamente inseridas nas escolas e Universidades. No Brasil, a mulher tem toda a liberdade desde que aceite equiparar-se a um mero objeto sexual: mutilar-se para estar mais ao gosto da freguesia, vestir-se para expor-se mais aos olhos gulosos dos homens, e dançar e cantar para fechar essa boa ‘peça de marketing’ que promove, mundo a fora, a imagem da brasileira hot girl. Por outro lado, se essa mulher tem opiniões, estuda, argumenta, e PENSA, ela é rapidamente chamada de ‘mal-amada’, chata, histérica. Cansei-me de ouvir na política, os adversários políticos das candidatas chamando-as de “Dona fulana de tal”, no lugar de Sra. Fulana de tal. Cansei-me de ver o riso das pessoas que, ao assistirem uma mulher defendendo suas posições veementemente, dizem maliciosamente “Não tomou o remédio hoje”, “Está de chico”.
Tendo a pensar que o desrespeito entre as mulheres brasileiras está no mesmo patamar do desrespeito praticado nos mais criticados países do Oriente Médio e digo isso porque aqui e lá a mulher deve resignar-se a cumprir o papel que a sociedade patriarcal lhe atribui sem questionar, e sempre que ela se levanta contra essa ideia, é rotulada e excluída de seu meio social.
Fica a pergunta: as mulheres estão mais próximas de conquistarem o papel que merecem em sociedades onde elas têm clareza a respeito da discriminação que sofrem ou em sociedades onde elas pensam, erroneamente, que são livres?

Anônimo disse...

Antes de comentar esse fato lamentável; quero reiterar a minha ciência da importância e gravidade do assunto homossexualidade, que é coisa de prática exclusiva de adultos; demandando uma discussão séria, tranqüila e respeitosa entre todos os envolvidos que impeça a pretendida ditadura de algo que vai além dos reais direitos dos que vivem a homossexualidade, os quais, respeito e defendo (somente esses reais direitos), conforme três Blogs meus postados na Rede sobre o assunto ─
O QUE É O PLANO NACIONAL LGBT? Endereço ─ www.direitoshumanosrespeitoejustica.blogspot.com ,
O QUE É O PLC 122 OU A DITA LEI HOMOFÓBICA? Endereço  www.verdaderespeitoejustica.blogspot.com ,
O QUE É O PLC 122 OU A DITA LEI HOMOFÓBICA? (sinopse do anterior) Endereço  www.sinteserespeitoejustica.blogspot.com
É sério este fato lamentável: o homem Laerte Coutinho vestido de mulher (ainda que se entenda como bissexual) achar que tem o legítimo direito de usar o banheiro feminino (das mulheres)... Quando digo sério é pelo fato de existir como que uma conspiração contra a família brasileira, no tentar fazer de todos nós andróginos. Senão avaliem o que aconteceu com essa menina de 10 anos e demais mulheres que lá estavam, na ação de atentado ao pudor por parte de um homem; que também é pai e com ótima formação acadêmica, que lhe dá toda capacidade cognitiva para entender a insanidade do seu ato. Coisa essa feita a pretexto do direito de um homem vestido de mulher (no caso aqui o Laerte) entrar em banheiro feminino... Estejamos atentos ao que se pretende contra a família e Princípios éticos e morais.
Atenciosamente JORGE VIDAL

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