sábado, 10 de setembro de 2011

Minhas lembranças do 11 de setembro

Blog do Emir Sader
Não era a primeira vez que eu despertava com o ruídos dos aviões sobrevoando a região. Dois meses e meio antes, no final de junho, tinha vivido essa circunstância angustiante. Tinha descido correndo até o Palácio da Moeda, que ficava a duas quadras do prédio de apartamento central onde eu morava.

A imagem era a que voltaria a presenciar poucas semanas depois: tropas cercando o palácio presidencial. Setores das FFAA mais radicalizados forçavam o resto das instituições militares a acelerar o golpe em preparação. Mas as condições não estavam dadas, a tal ponto que o Comandante-em-chefe das FFAA ainda era leal a Allende – Carlos Prats, que percorreu todos os quarteis rebelados e, com argumentos e força moral, conseguiu a rendição dos golpistas.

Nessa noite, com a Praca da Constituição, em frente ao Palácio da Moneda, mais lotada do que nunca, Allende optou por consagrar as autoridades militares vigentes, não apenas, com justiça, a Prats, mas aos comandantes das outras armas, suspeitos de estar nas articulações golpistas. Estes seguiram seus planos, conseguiram tirar Prats e substituí-lo por Pinochet que passou, agora de dentro do governo mesmo, a articular o golpe.

No dia 4 de setembro, aniversário da vitória eleitoral de Allende, três anos antes, a maior multidão que o Chile tinha conhecido saiu às ruas para expressar seu apoio ao governo. Mas nada brecou as articulações golpistas. Quando Allende se preparava, dia 11 à noite, para fazer um pronunciamento ao país em rede de radio e televisão, os militares golpistas, alertados por Pinochet, anteciparam o golpe, aproveitando-se também das manobras militares de um porta-aviões norteamericano, no porto de Valparaíso.

Assim, poucas semanas depois, voltei a ser acordado pelo zumbido dos aviões sobrevoando. Desta vez não havia dúvidas que era uma nova tentativa de golpe, desta vez a definitiva. Desci da mesma maneira e fui à Praça da Constituição. Desta vez o Palácio da Moeda estava cercado por um contingente claramente maior de tropas.

Santiago já estava sendo ocupada, Valparaíso era a sede do movimento golpista, que tomava as rádios e TVs e Pinochet anunciava o ultimato a Allende, com prazo do meio dia, hora em que o Palácio da Moeda seria bombardeado. Paralelamente mandaram a Allende a proposta de que ele abandonasse o Palácio, com seus parentes, para ser enviado por helicóptero ao exterior. Ressoou por toda a Cordilheira o palavrão com que Allende rechaçou a oferta dos golpistas.

Allende se dirigiu pela última vez ao povo na rádio da central sindical, seu famoso discurso em que nanuncia que “mais cedo do que se imagina as grandes alamedas da democracia se reabrirão no Chile”. E seguiu resistindo, a partir da janelinha mais alta do Palácio, de onde se dirigia ao povo, com o capacete que os mineiros tinham dado a ele a o fuzil soviético AK-47 que Fidel tinha lhe presentado. Allende, um pacifista por excelência, empunhava armas para defender a democracia e o mandato que o povo lhe havia concedido.

O prazo foi adiado um pouco, mas finalmente os caças bombardeiros ingleses despejaram todo seu poder de fogo sobre o palácio presidencial, símbolo da extraordinária continuidade democrática chilena, só rompida, até ali, em dois breves momentos, desde 1830. A imagem que se reproduz sempre é significativa do que se vivia naquele momento: um presidente legitimamente eleito pelo povo chileno, cercado pelos militares golpistas, bombardeado, como resultado de um complô que tinha se iniciado assim que Allende ganhou as eleições, antes mesmo que tomasse posse.

Em reunião no Salão Oval da Casa Branca, Agustin Edwards, proprietário do jornal El Mercurio, se reuniu com Nixon e com Kissinger, começando a planejar o golpe. Kissinger afirmou que era preciso “salvar o povo chileno das suas loucuras”. Essa articulação desembocou no golpe, na destruição da ditadura chilena e na instauração do regime mais feroz que o Chile conheceu.
Allende preferiu o suicídio a abandonar o Palácio vivo. Neruda morre poucos dias depois de 11 de setembro. Victor Jara teve seus pulsos amputados e morreu no então Estadio Chile, rebatizado no fim da ditadura como Estadio Victor Jara. Milhares de pessoas foram presas, torturadas, assassinadas, desaparecidas, exiladas. A democracia chilena foi destruída, com ela o Parlamento, a Justica, os sindicatos, os partidos políticos, a imprensa democrática.

Tudo começou naquele 11 de setembro. Fui detido, junto com outros brasileiros, numa delegacia de polícia, assim que o toque de recolher foi suspenso e pudemos sair à rua. O Estádio Chile estava superlotado, não sabiam o que fazer com tanta gente esperando nas delegacias. Antes que voltasse o toque de recolher, liberaram uma parte dos presos, com o que pudemos ser liberados. Há 38 anos. O Chile começava a viver apenas o início do inferno de terror da ditadura pinochetista.

Postado por Emir Sader
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2 comentários:

ITAARA'S BLOGS disse...

Réquiem para todas as vítimas!

Converso neste momento com os amparadores do mundo. Amanhã haverá réquiem para cerca de 3.000 vitimas do Centro de Negócios do Mundo. Inocentes que morreram sem nem mesmo saber o por quê! Nós sabemos! Foi a criatura voltando-se contra o criador ao não ter mais seu apoio!
No desenrolar dos acontecimentos, duas guerras foram travadas: Afeganistão e Iraque. Resultado? Quase um milhão de mortos segundo uns e cento e poucos mil civis segundo outros. Uma Lei de Talião meio as avessas e já usadas pelo Nazismo: para cada soldado alemão morto, quatro civis executados. A matemática não é igual, a vingança é a mesma!
Quem fará o réquiem para as outras vítimas?
Peço que as ajudas que sempre os amparadores proporcionam aos dessomados, sejam mais abrangentes para todos os que são vitimados por essas guerrilhas oficiais ou não.
Por que peço isso? Pelo simples fato da Reencarnação explicado pelo Espiritismo e a Ressoma explicado pela Conscienciologia, que pode em futuro breve colocar desencarnados/dessomados novamente frente a frente em novas ressomas/reencarnação.
A interligação cármica está feita. Se não houver um trabalho hercúleo da rede assistencial extra-física esses novos conflitos continuarão por séculos e séculos indefinidamente. Vide o que acontece agora com israelitas, não estão fazendo a mesma coisa que os alemães fizeram com eles? Dirão não estamos matando no atacado como eles fizeram. Será que não? Cortando ajuda humanitária e bombardeando-os dia sim e outro também? Matar aos poucos constantemente atingirá o mesmo objetivo!
Por que escrevo isso?
Houve uma vez um escrito que faz parte de uma biblioteca de livro único que se convencionou chamar de Bíblia(biblioteca) que entre as leis maiores propunha:
NÃO MATARÁS!
Assim enxuto sem condicionamentos e nem parágrafos! Além de ser bíblico, é uma lei natural!
Ao pedir por todos aos amparadores(= anjos, santos, espíritos superiores), humildemente movimento as forças do universo no sentido de uma futura promessa de paz. Essa certamente terá que vir do extra-físico pois que daqui (intra-físico) há pouca chance de sair alguma coisa!
http://blogdeitaara.blogspot.com

Fabio Rossano Dario disse...

A América toda chora nesta data, não somente o Chile. No dia 11 de setembro de 1973 assassinaram Salvador Allende. Cinco dias depois, em 16 de setembro foi a vez do compositor Victor Jara e no dia 23 foi a vez do poeta Pablo Neruda. Outros tantos milhares foram brutalmente assassinados pela ditadura do general Pinochet, que teve apoio total dos Estados Unidos, para o golpe e para os anos de violência que viriam.

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