O enterro da Europa social percorre o noticiário econômico há anos, mas nas últimas horas os dobrados fúnebres ecoam decibéis cada vez mais elevados: Grécia dobra a aposta na ortodoxia; Itália vai às cordas na rendição aos mercados; Sarkozy anuncia novos cortes de gastos e aumento na idade mínima da aposentadoria. Não é pouco o que se perde nesse cortejo. Com um pé na cova, o neoliberalismo arrasta consigo a região do mundo em que, sob o impulso das ruas e dos sindicatos, e sob a vigilância de um singular discernimento dos direitos civilizatórios, resistiu durante mais de quatro décadas à lógica bruta dos mercados impondo-lhe contrapesos contundentes de democracia política e social.
A Europa é o epicentro da crise do capitalismo nesse momento; num certo sentido ela é, também, uma crise da civilização em nosso tempo. A reiteração doentia da lógica e das forças que originaram essa deriva e, sucessivamente, fizeram-na predominar desde a periferia até o coração rico do euro evidencia o ocaso de um projeto em que os interesses dominantes não têm mais nada a propor, exceto edulcorar a morte de uma época com a repetição catatônica da lógica do mal-estar social. Novos atores e novos partidos terão que ocupar a cena para interromper esse cortejo de regressividade e violência econômica e retomar um processo civilizatório, do qual o Estado do Bem-Estar Social europeu já foi um dos pilares mais admirados.

0 comentários:
Postar um comentário