Não é verdade!
Sírio Possenti
Como faço às vezes, imaginando ter sorte, estava zapeando pelos diversos canais. Mas nada interessava (ou já tinha visto dez vezes!). Pensei: a TV Cultura pode me salvar, sempre tem alguma coisa interessante passando lá (mas não é verdade). O título do programa era "Nossa Língua". A cena: um casal jovem está sentado à (!) mesa. Surge uma garçonete "japonesa" e informa que deram sorte, que é o dia do prato especial. O rapaz diz: "Que previlégio comer este prato" etc. A garçonete lhe diz que está errado. Ele responde que foi ela mesma quem deu a informação. Ela replica que ele está certo sobre este assunto (a comida), mas que disse "previlégio". E o certo é "privilégio". A moça que acompanha o rapaz diz que é isso mesmo. Ele fica sem jeito.
A garçonete então ministra uma aulinha (errada): muita gente diz "previlégio" porque acha que "pré" é um prefixo, que quer dizer 'antes', como em "pré-história" etc. Acrescenta que, se fosse assim (se "pré" fosse um prefixo), "vilégio" deveria ter um sentido, mas não tem (esta parte do serviço é razoável).
Não sei por que fazem uma cena dessas, que deve custar caro, para dar uma aulinha errada. Deve ser porque imaginam que, assim, o telespectador não vai mais esquecer a pronúncia correta ("imita" a Banca do Português, quadro de outro programa do mesmo tipo; só mudou a mosca). Ou então porque a coisa parece engraçada. A sinopse do programa sugere isso. "Prof. Pasquale e Felipe Reis mostram que aprender Língua Portuguesa pode ser bem divertido".
Primeiro: por que as coisas têm que ser divertidas? (A tese está em todos os lugares: livros didáticos, escolas, programas esportivos etc. Estamos na era do humor!). O resultado é que não se aprende, porque, afinal, estudar qualquer coisa direito (gramática, inclusive) exige disciplina, esforço, rigor, exatamente o outro lado do divertido, embora possa ser muito prazeroso (ver Freud sobre como o humor viola as exigências do pensamento rigoroso; é bom demais).
Segundo: por que, para ser mais ou menos divertido, tem que haver alguém "humilhado" (logo diante da namorada!)? Por que os roteiristas não bolaram uma fala inteligente? Efeito Rafinha Bastos?
O mais grave, no entanto, é que a análise está errada (aliás, como quase todas as que já não estão prontas em gramáticas, dicionários e manuais, quando a coisa vem dessa fonte).
A pronúncia "previlégio" é um caso óbvio de hipercorreção. Explico: é comum que a vogal "e" átona seja alçada, pronunciada "i": exemplos óbvios são "minino", "priguiça", "prifirir" etc. (o que ocorre nessa relação e > i ocorre também com o > u; daí "curuja", "bunito" etc.). Estou desconsiderando, aqui, outras posições em que a mesma variação ocorre, até mais regularmente, e que resultaria, por exemplo, em "mininu" e "bunitu".
Essas pronúncias são corrigidas, na escola ou na "sociedade". Um dos efeitos da correção é que o falante pensa que todos os "ii" nessas posições são "ee". Em virtude dessa análise (errada, mas com algum fundamento), ele dirá "menistro" e "previlégio" (isto é, dirá "e" também quando se trata de fato de um "i", não apenas quando se trata de um "i" derivado de "e"). Estão no mesmo domínio de flutuação palavras como "cumprimento / comprimento" e "iminente / eminente", muitas vezes "confundidas" e, por isso mesmo, objeto de ensino em separado. Sem uma explicação razoável, o resultado é a manutenção do problema. Essas duplas dão boas pegadinhas!
A hipercorreção ocorre em geral como uma espécie de reação ao que é mais corrigido. Há muito mais casos de "ii" em lugar de "ee" e de "uu" em lugar de "oo" (como em "mininu") do que o contrário. Da mesma forma, há mais correções de "falta" de concordância do que de excessos. Formas como "haviam muitas pessoas" são hipercorreções. Decorrem do medo de errar!
Além do erro pontual, a análise da garçonete peca pelo desconhecimento de que se trata de um fenômeno bastante geral, embora não categórico (em diversos casos, é possível que se trate de uma variação que não decorra de hipercorreção: como explicar formas como "premero" (por "primeiro") na fala de quem provavelmente não faz parte do grupo submetido às correções?).
Mesmo que aquela explicação valesse para "previlégio" (por que ninguém diria "prévilégio"?), não valeria para outras hipercorreções da mesma natureza, comuns na fala e, por isso mesmo, origem de muitas variações (ou erros) de grafia? Por exemplo, como explicar "menistro"? O falante pensaria que "me" é um pronome oblíquo?
Explicações devem ser gerais. As que explicam só um caso não são explicações. São regras ad hoc.
Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.
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