domingo, 12 de fevereiro de 2012

Dogma ou biologia?


Sobre a alma 

Depois do festival de hipocrisia que foi a última campanha presidencial, com os principais candidatos se esforçando para posar de coroinhas, é quase um bálsamo ver uma autoridade pública assumindo claramente posição pró-aborto, como o fez a nova ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci. E, como ela própria defende que a questão seja debatida, dou hoje minha modesta contribuição.

O argumento central dos antiabortistas é o de que a vida tem início na concepção e deve desde então ser protegida. Para essa posição tornar-se coerente, é necessário introduzir um dogma de fé: o homem é composto de corpo e alma. E a Igreja Católica inclina-se a afirmar que esta é instilada no novo ser no momento da concepção. Sem isso, a vida humana não seria diferente da de um animal e o instante da fusão dos gametas não teria nada de especial.

O problema é que ninguém jamais demonstrou que a alma existe e muito menos que se instala no embrião quando da fecundação do óvulo.

Na verdade, é difícil conciliar a noção de alma com o que sabemos de biologia. Um bom exemplo é o fenômeno da gemelaridade. Gêmeos monozigóticos (idênticos) se formam entre um e 14 dias depois da fertilização, quando o embrião sofre um desenvolvimento anormal dando lugar a dois ou mais indivíduos com o mesmo material genético.

A alma, é claro, já estava lá. Cabem, assim, algumas perguntas. Ela também se divide, ou outras almas surgem para animar os demais irmãos? De onde elas vêm? Quem fica com a "original"? E, se gêmeos partilham a mesma alma, como fica o livre-arbítrio? Se um irmão peca, leva o outro ao inferno? Ou a alma boa prevalece sobre a má, carregando para o paraíso uma ovelha negra?

Se é a noção de alma que sustenta teologicamente a oposição ao aborto, no plano biológico ela só cria confusão. Façam suas escolhas. Eu fico com a biologia.

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3 comentários:

Davi Jr: disse...

Na minha modesta opinião,e sem os dogmas religiosos,já que para mim cabe ao homem o livre arbítrio de ter ou não fé,em especial na questão da alma e se ela se divide,creio que sejam quantas forem as divisões do embrião cada um terá a sua alma,como por exemplo cada um terá a sua impressão digital.Essa opinião pode concordar com algum dogma,mas não será contrária a ciência,pois ai esta o livre arbítrio de crer ou não.Quanto ao tabu do aborto já já.Quanto a quando a alma entra no corpo se ele já esta formado ou em formação,mas uma vez vem a fé de cada um,creio que a alma diferente do embrião que precisa de tempo para sua formação,ela já esta formada e só pertencerá ao corpo quando este estiver pronto para recebe-la,se logo ao nascer ou mais tarde a minha fé me diz que depende da vontade de Deus.Quanto ao aborto vou repetir a opinião que dei a algum tempo,não sendo a mulher desprovida de alma ou sentimento,(não sendo deficiente mental)fica a critério dela resolver o que é melhor para a saúde dela e de seu embrião.Um acompanhamento deve ser observado,como já é,quando se tratar de alguns casos especiais,no caso da mulher ser estuprada ou correr risco de vida a decisão deve ser só dela ou caso ela peça uma segunda opinião,a vítima ou a doente estará resolvendo sobre o corpo dela!e da mesma forma que você ou eu não quer que decidam por nós coisas que dizem respeito ao nosso corpo,salvo se pedirmos,este conceito precisa ser respeitado.

Carlos Cwb disse...

Quer dizer, a cada ejaculada que dei na vida,condenei milhões de almas( espermatozóides) ao limbo, porque só tive dois filhos.
A religião ainda vai fazer com que eu me sinta um genocida...

Marli disse...

Sou favorável a legalização do aborto e contra a hipocrisia das igrejas que usam qualquer subterfúgio pra manipular o mundo.

No entanto quanto à questão de almas, se assim fosse, no caso dos gêmeos idênticos diriam os religiosos que já havia 2 almas preparadas para os gêmeos, pois sendo Deus onipotente já saberia que seriam formados 2 indivíduos embora sejam idênticos geneticamente.

Teoria e delírio é o que não falta.

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