Sobre a alma
Depois do festival de hipocrisia que foi a última campanha presidencial, com os principais candidatos se esforçando para posar de coroinhas, é quase um bálsamo ver uma autoridade pública assumindo claramente posição pró-aborto, como o fez a nova ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci. E, como ela própria defende que a questão seja debatida, dou hoje minha modesta contribuição.
O argumento central dos antiabortistas é o de que a vida tem início na concepção e deve desde então ser protegida. Para essa posição tornar-se coerente, é necessário introduzir um dogma de fé: o homem é composto de corpo e alma. E a Igreja Católica inclina-se a afirmar que esta é instilada no novo ser no momento da concepção. Sem isso, a vida humana não seria diferente da de um animal e o instante da fusão dos gametas não teria nada de especial.
O problema é que ninguém jamais demonstrou que a alma existe e muito menos que se instala no embrião quando da fecundação do óvulo.
Na verdade, é difícil conciliar a noção de alma com o que sabemos de biologia. Um bom exemplo é o fenômeno da gemelaridade. Gêmeos monozigóticos (idênticos) se formam entre um e 14 dias depois da fertilização, quando o embrião sofre um desenvolvimento anormal dando lugar a dois ou mais indivíduos com o mesmo material genético.
A alma, é claro, já estava lá. Cabem, assim, algumas perguntas. Ela também se divide, ou outras almas surgem para animar os demais irmãos? De onde elas vêm? Quem fica com a "original"? E, se gêmeos partilham a mesma alma, como fica o livre-arbítrio? Se um irmão peca, leva o outro ao inferno? Ou a alma boa prevalece sobre a má, carregando para o paraíso uma ovelha negra?
Se é a noção de alma que sustenta teologicamente a oposição ao aborto, no plano biológico ela só cria confusão. Façam suas escolhas. Eu fico com a biologia.
3 comentários:
Na minha modesta opinião,e sem os dogmas religiosos,já que para mim cabe ao homem o livre arbítrio de ter ou não fé,em especial na questão da alma e se ela se divide,creio que sejam quantas forem as divisões do embrião cada um terá a sua alma,como por exemplo cada um terá a sua impressão digital.Essa opinião pode concordar com algum dogma,mas não será contrária a ciência,pois ai esta o livre arbítrio de crer ou não.Quanto ao tabu do aborto já já.Quanto a quando a alma entra no corpo se ele já esta formado ou em formação,mas uma vez vem a fé de cada um,creio que a alma diferente do embrião que precisa de tempo para sua formação,ela já esta formada e só pertencerá ao corpo quando este estiver pronto para recebe-la,se logo ao nascer ou mais tarde a minha fé me diz que depende da vontade de Deus.Quanto ao aborto vou repetir a opinião que dei a algum tempo,não sendo a mulher desprovida de alma ou sentimento,(não sendo deficiente mental)fica a critério dela resolver o que é melhor para a saúde dela e de seu embrião.Um acompanhamento deve ser observado,como já é,quando se tratar de alguns casos especiais,no caso da mulher ser estuprada ou correr risco de vida a decisão deve ser só dela ou caso ela peça uma segunda opinião,a vítima ou a doente estará resolvendo sobre o corpo dela!e da mesma forma que você ou eu não quer que decidam por nós coisas que dizem respeito ao nosso corpo,salvo se pedirmos,este conceito precisa ser respeitado.
Quer dizer, a cada ejaculada que dei na vida,condenei milhões de almas( espermatozóides) ao limbo, porque só tive dois filhos.
A religião ainda vai fazer com que eu me sinta um genocida...
Sou favorável a legalização do aborto e contra a hipocrisia das igrejas que usam qualquer subterfúgio pra manipular o mundo.
No entanto quanto à questão de almas, se assim fosse, no caso dos gêmeos idênticos diriam os religiosos que já havia 2 almas preparadas para os gêmeos, pois sendo Deus onipotente já saberia que seriam formados 2 indivíduos embora sejam idênticos geneticamente.
Teoria e delírio é o que não falta.
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