Um terreno baldio, a perder de vista, é o que sobrou do assentamento Pinheirinho. Ainda cercado de pinheiros, o espaço se assemelha a um lixão, com pilhas enormes de entulho. Nenhuma casa de pé. Entre os pedaços de telha e alvenaria, emergem os restos de toda uma vida destruída: roupinhas de criança, brinquedos, folhas de calendário, secador de cabelo, privadas, chips de computadores, cadernos escolares, livros religiosos. A maioria chamuscada. No sábado 4 de fevereiro, a fumaça ainda exalava do amontoado de madeira.
Algumas poucas pessoas andam entre os entulhos. Mesmo assim, como que para marcar território e sem grandes sinais de qualquer ação para impedir intrusos, um grupo de homens sentados à sombra de um toldo improvisado alerta, quando se chega mais perto “Não pode entrar, não. É propriedade particular”. Até pouco tempo atrás um bairro da cidade, o Pinheirinho é agora mais um pedaço de terra cercado.
As famílias foram espalhadas por quatro abrigos em escolas da região. Uma quadra poliesportiva é o dormitório. Em volta do colchão, as pessoas reúnem os poucos pertences que conseguiram salvar da demolição. Algumas adolescentes experimentam qual sapato de salto alto da pilha de doações fica melhor nelas. Crianças passam perguntando onde estava o moço que distribui as balas, em meio a brincadeiras improvisadas para passar o tempo.
Depois da operação, as famílias do Pinheirinho contam sofrer todo tipo de estigma. Uma mulher reclama que não consegue matricular seu filho na escola, depois que disse ser ex-moradora do Pinheirinho. A estratégia da prefeitura para esvaziar os abrigos é oferecer aluguel social, traduzido em um cheque de 500 reais. Mas o morador só pode ter acesso ao dinheiro depois de comprovar que terá onde gastar. Muitos encontram dificuldade em fechar o contrato do aluguel por apenas seis meses, período em que a prefeitura garante o pagamento. Vários contam terem perdido os empregos, depois de aparecerem na televisão como os invasores do Pinheirinho. “Ficamos com todas as famas ruins: de baderneiro, invasor”, indigna-se uma das ex-moradoras no assentamento.

2 comentários:
Tristeza sem fim...quero ir embora deste estado.
Ou, olha a música "Nos Barracos da Cidade" do Gilberto Gil, parece que foi feita para pinheirinho!
Nos barracos da cidade
Ninguém mais tem ilusão
No poder da autoridade
De tomar a decisão
E o poder da autoridade, se pode, não faz questão
Mas se faz questão, não
Consegue
Enfrentar o tubarão
Ôôô , ôô
Gente estúpida
Ôôô , ôô
Gente hipócrita
E o governador promete,
Mas o sistema diz não
Os lucros são muito grandes,
Grandes... ie, ie
E ninguém quer abrir mão, não
Mesmo uma pequena parte
Já seria a solução
Mas a usura dessa gente
Já virou um aleijão
Ôôô , ôô
Gente estúpida
Ôôô , ôô
Gente hipócrita
Eduardo
Postar um comentário